Terça-feira, Abril 24, 2007

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Mr. Bean's Holiday, Steve Bendelack, Reino Unido, 2007.

Numa tarde chuvosa na Inglaterra, Mr. Bean (Rowan Atkinson) ganha o 1º prêmio em uma rifa local: uma filmadora nova, 200 euros e uma semana de férias no sul da França. O período de sua viagem coincide com a realização do Festival de Cannes, um dos mais famosos festivais de cinema do mundo
(sinopse adaptada do Adorocinema)

Mr. Bean - Eu ri.

por Ela e Ele


Está difícil rir no cinema. Digo rir aquela risada solta, espontânea, de uma piada inteligente ou uma gag bem feita. Em meio a desastres ecológicos e filmes sobre relações humanas complexas, efeitos especiais, bichinhos estranhos e adaptações de HQ, buscamos um pouco de lirismo e não encontramos. Ultimamente, o velho Wood anda meio Hitchcockiano, nem vale a pena apelar. Apostamos nossas fichas em Mr. Bean, aquele mesmo que de vez em quando nos arranca uma gargalhada no sábado à tarde, nessas infinitas reprises da Bandeirantes.

Se uma ou outra piada funciona, o ritmo de esquete de Mr. Bean não se adapta facilmente a uma história de duas horas. A narrativa, e suas necessidades, tensiona o jeitão livre e desprendido das historietas do personagem. Além do mais, Mr. Bean já é um personagem um tanto desgastado, e as mesmas piadas não podem ser usadas indefinidamente. A cena do restaurante, por exemplo, é quase idêntica (e muito menos eficiente), a um quadro já exibido (e reprisado) na TV, que tem o mesmo cenário e esquema. O próprio Rowan Atkinson parece cansado, e consciente da posição perigosa em que está – prestes a virar uma nada engraçada paródia de si mesmo.

O esforço, no entanto, é genuíno, e alguns momentos conseguem, sim, provocar o riso (como quando Mr. Bean, disfarçado de freira, dubla ópera numa feira pra ganhar alguns trocados). Mas, neste como em outros momentos, o balão desinfla e o ritmo cai bruscamente. O adjetivo irregular, por mais clichê que seja, se encaixa ao filme como uma luva.

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Gracias! Gracias!

Agora, por incrível que pareça, o filme tem alguns achados memoráveis, que passaram (e certamente continuarão) despercebidos pela crítica, que muito naturalmente fechou suas abordagens no sucesso ou não do personagem principal em sua segunda aventura na tela grande. É que, paralelamente à comédia de erros do nosso querido Bean, e se distanciando mesmo de grande parte da história, existe ali uma discussão e uma crítica do cinema, muito aguda e inteligente. É o que se vê no personagem de Willem Dafoe: um famoso diretor que vai a Cannes exibir o seu novo "filme cabeção". Pois o tal filme cabeção, por si só, é uma antologia memorável de tiques e exibicionismos pseudo-cults usados por muitos "autores" do cinema, em especial o uso do voz-off-cabeção e a fotografia carregada. As imagens da platéia pegando no sono são impagáveis, têm gosto de desforra.

O final, de tão sensacional, quase apaga a história mamão-com-açúcar e as trapalhadas pouco engraçados de um Mr. Bean em fim de carreira. Rowan Atkinson já avisou que este é seu último trabalho com o personagem. O cara é inteligente. Agora, nos cabe acompanhar a carreira promissora do diretor Steve Bendelack, o mais novo ilustre desconhecido do cinema, que em seus momentos de brilhantismo lembra o potencial crítico de um A Doce Vida, e, em outros, a verve humorística de um Jacques Tati. Palmas para ele.


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Cartola, Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, Brasil, 2007.

Cartola, Rio de Janeiro e o amor.

Por Ela


Alguns amigos me perguntam se gostei do documentário e eu digo que sim. Os poucos que conhecem meu gosto cinematográfico desconfiam que ele caiu nas minhas graças facilmente. Uma obra sobre uma figura nacional, cheia de música e momentos poéticos ─ forma e conteúdo indissociáveis, como as obras de Angenor. Me rendi. Preciso admitir não ser tão entendedora da obra de Cartola (um sucesso aqui, um cd na casa da sogra alí, uma interpretação mais emocionada de Nei e Cazuza acolá), ao contrário do público de músicos e estudiosos que me fizeram desagradável companhia na sessão das 16h no Cinema do Museu (sim, eles cantaram e falaram durante toda exibição). A falta de um contato profundo com a história e a filmografia de Cartola não me permitem afirmar que o filme dá conta de toda sua importância para a música brasileira, muito embora saibamos que todo filme é um recorte, um olhar sobre um tema. Lírio Ferreira e Hilton Lacerda foram felizes em suas escolhas. Selecionaram depoimentos e interpretações fabulosas. As imagens de arquivo são preciosíssimas, bem como os inserts ficcionais da figura muito bonita de um garoto, que representa a infância de Cartola no Rio de Janeiro de décadas passadas.

Cartola, sujeito principal do filme, se mistura com a história da Mangueira, do Rio de Janeiro e do samba no Brasil. Se confundem por conta do excesso de característica semelhantes: a sofisticação, a elegância, a beleza, a força e a originalidade. A semelhança também está nos pontos negativos: momentos de decadência, o desastre do descaso e do desconhecimento.

Os depoimentos sobre Cartola ajudam a resgatar a bela história do Rio de Janeiro em sua época mais gloriosa ─ um tempo de boemia e efervescência cultural. Do auge das Escolas de Samba e, por que não, da própria Música Popular Brasileira (questão de gosto pessoal). Além da homenagem ao mestre, o documentário também eterniza o passado glorioso do próprio Rio de Janeiro, ativando de forma fulminante a identificação e o orgulho para com nossos compositores.

O filme revela muito sobre a história de Cartola. Estão lá a infância, a adolescência conturbada, o caso com a Mangueira, os momentos de altos e baixos artísticos e sua inspiradora história de amor com Dona Zica. O que parece continuar desconhecido, no entanto, são as informações com relação a sua real história de amor com a música, com o samba. Uma excursão pelo seu denso e poderoso universo criativo. Por vezes misteriosa, a figura de Cartola aparecia em tela grande. Ele cantava, falava, mas seu olhar melancólico parecia carregar um segredo que foi com ele para o outro mundo. Um segredo que pode ser percebido em suas músicas, que emocionam e comovem. Uma comoção dolorosa, que nos mantém em contato com um lado do amor e do amar nem um pouco saudáveis. Não tem explicação.

3 comentários:

Manuel disse...

Achei uma gag sem graça no texto:

(como quando Mr. Bean, disfarçado de feira, dubla ópera numa freira pra ganhar alguns trocados).

inverter palavras parecidas perdeu a graça no século passado.

Iris & Davi disse...

Barral seu bobo! já concertei!
bjículos

irinha

Paolo Fraga disse...

Esse eu vi ontem no cinema ! Achei bobo... apesar de tentar ser sensível como a série, não atinge o meu esperado. A cena da ópera todavia valeu o ingresso ganho por horas extras no serviço.
O Cartola tô marcando de ver ainda ! Tô assistindo em média 5 filmes por dia, quando volto do trampo, e escrevendo 4 textos por dia. Tô tentando criar um roteiro, mas toda vez q volto a ele acho q vou ficar louco e paro ! Preciso mesmo produzir...
Abração !