
As vezes sinto que, muito mais que a ficção, filmes documentários mexem comigo. É como se um punhado de mundo fosse lançado em doses generosas dentro de minha cabeça, dentro de meu corpo. A sensação é de “gravidez do mundo”. Um mundo intenso, que serve de tema para os filmes, trabalhando em três tempos: passado (quando resgata a memória de lugares e pessoas), presente (quando acompanha, em tempo real, como em um jornalismo sofisticado, o desenvolvimento do cotidiano), e futuro (quando nos alerta sobre o que virá através da denúncia dos nossos erros e acertos).
Percebo também outras duas categorias, que classifico simplesmente como “a do geral” e a “do particular”, sendo esta última muito presente no citado Festival, revelando tendência e formato. As lentes das câmeras se voltam para os micros universos, para umbigos não menos interessantes (e algumas vezes até mais) que o universo das massas, da generalização, dos grandes fatos históricos. Aquela velha idéia de falar do pão para chegar na padaria. E então eu assisto filmes sobre dramas pessoais, poesia do cotidiano de comunidades, histórias de heróis anônimos. Tudo tão fascinante quanto a poderosa ficção. Boa parte dos documentários assistidos traziam mensagens complexas, necessárias e “necessariamente complexas”. Como fábulas, desempenharam seus papéis, deixando-nos sorumbáticos, pensativos e catatônicos até a próxima sessão. mais voltar
Ela
Comentários sobre os filmes assistidos
Por Ele
Capistrano no quilo (premiado na categoria melhor documentário curta-metragem nacional)
Firmino Holanda/ Brasil - CE / Brazil – CE / 21', cor, 35mm, 2006
Não é novidade que muitos festivais brasileiros privilegiam a intenção em detrimento da realização. Roteiro, enquadramento e som são meros detalhes, na opinião de muitos jurados. Conta mais o envoltório cultural, que instantaneamente reveste ou não o produto de validade, independente de sua competência. Apenas sob esse contexto se justifica a premiação deste vídeo, de um amadorismo gritante. A montagem tosca, o texto televisivo, o uso colegial de artimanhas teatrais que se perdem no discurso: tudo isso passa despercebido para os jurados. A premiação denota uma condescendência que não serve para ninguém. O realizador regionalista Firmino Holanda recebe um estímulo precoce e indevido, com o título de obra máxima sendo conferido a um trabalho que, muito embora louváveis prerrogativas, produz efeitos questionáveis. Pior: para o público do festival, a decisão do júri deixa a impressão de que a obra máxima do documentário nordestino está no nível primitivo de um Capistrano no quilo, algo muito longe da verdade.mais voltar
O Homem da Árvore (prêmio Canal Brasil, de documentário curta-metragem nacional)
Paula Mercedes /Brasil - SP /19', cor, Mini-DV, 2006
O prêmio é conferido pelo Canal Brasil, um dos patrocinadores do festival. O curta apresenta um bom trabalho de câmera e montagem. No entanto, quando se fala de documentário, questões éticas ganham relevo natural. O aproveitamento, para efeito de humor ou crítica, da atitude de pessoas claramente desviadas do bom senso, se tornou um clichê fácil. A crítica se esvazia diante da situação cômica, e ao final temos um trabalho consistente, porém questionável. É difícil definir o limite entre o próximo que revela o todo e o simples voyeurismo, que provoca riso e empatia ao modo das pegadinhas.
João Sodré, Maíra Bühler, Paulo Pastorelo / Brasil – SP / 75', cor, Beta digital, 2006
A comparação com Edifício Master é óbvia. O filme de Coutinho captura as pessoas em uma abordagem padronizada, mecânica, fria, insensível. Sem muitas preocupações, o diretor carioca deixa o tragicômico correr solto, tratando os personagens como objetos inconscientes, para alcançar o seu fim estético. Já Elevado 3.5 trata as pessoas com conveniente circunspecção e respeito, selecionando seus momentos de força, buscando finalizar os depoimentos em tom positivo. Não existem os momentos da produção, para criar a falsa sensação de realismo, como faz Coutinho. Neste filme, a câmera bem trabalhada captura uma urbanidade belíssima, em alguns momentos, e convencional,
Comentários sobre os filmes assistidos
Por Ela
Paula Mercedes /Brasil - SP /19', cor, Mini-DV, 2006
Mais que a exposição da curiosa vida do homem que mora numa árvore em frente ao palácio da república, em Brasília, o curta de Paula Mercedes constrói uma metáfora da situação do povo brasileiro ignorado, perplexo e desencantado com a política nacional. A ironia da situação se torna, por vezes, engraçada. Mas o riso se desfaz quando percebemos que é real, que faz sentido. Montagem e trilha tornam o material ainda mais especial.
Caroneiros
Martina Rupp / 52'/ BRA
Triste surpresa logo no primeiro dia de festival. Além de ser só mais um filme de viagem, os realizadores quiseram justamente evidenciar isso de todas as formas, abusando da metalinguagem, virando a câmera pra si (não que essa atitude fosse o maior problema, meu questionamento é sobre a forma como se fez isso, a estranheza sobre o propósito, que a meu ver se esvazia e deixa para traz o grande mote do projeto: dar voz a uma américa latina catada pelo meio da estrada. O resultado é um discurso batido, repetitivo e volumoso, evidenciando o desconhecimento dos povos latinos, não só sobre seu continente e o mundo. Um blá-blá-blá sobre os efeitos da globalização, tão denso quanto aula de geografia crítica em resumão de vestibular.mais voltar
Fabiano de Souza e Gilson Vargas / 26min/ BRA
Interessante versão do documentário poético, Porto Alegre de Quintana é a Porto Alegre de Fábio de Souza e de Gilson Vages (diretores do filme), que, corajosamente, se embrenham na poesia para apresentar não só a cidade, mas um contato com a obras de Mário. Missão bem sucedida, ótimas opções estéticas.
Um Bom Negócio
Eduardo Duwe / 5min / BRA
Mauricio Kinoshita / 16min/ BRA
Sempre complicado falar sobre esse tema. A abordagem fechada nos sobreviventes cria um elo inevitável com o espectador (ainda mais quando os sobreviventes estão sentados na cadeira ao seu lado). Trabalho interessante, mas um tanto convencional.
Logo Existo
Graça Castanheira / 60min/ Portugal
Uma boa surpresa vinda de Portugal. Apesar de longo e prolixo, o filme constrói um intrigante painel sobre o entendimento da mente humana e questões existenciais derivadas. Explorando com inteligência e bons depoimentos os conceitos envolta da famosa máxima de Descartes, o documentário nos oferece um precioso e instigante caminho pela complexidade humana. Histórias de vida e reconquista, persistência e transformação. Ciência e milagre dialogando em harmonia.mais voltar
O Engenho de Zé Lins
Vladimir Carvalho/ 80min / BRA
Um dos melhores documentários brasileiros que já assisti. Um filme fabuloso, sobre um escritor fabuloso, O Engenho... revela a figura complexa e intensa do escritor José Lins do Rego. Vladimir Carvalho ilumina o cenário do documentário nacional, proporcionando o encontro do espectador com o que há de mais fino na literatura brasileira. Uma experiência que nos impulsiona a (re)ler os clássicos esquecidos na prateleira. O depoimento de Suassuna é impagável.
Para Sempre (Forever)
Heddy Honigmann/95min/ Holanda
Um belo ensaio sobre morte e eternidade. Gostaria muito que tivesse sido premiado.
O Desafio de Zezão
Patricia Cornils / 13min / BRA
A seqüência do passeio pelo esgoto de São Paulo é extremamente cansativa. O mérito do projeto é o efeito surpresa, que implica em reflexão sobre a arte.
(Fabricando Polêmica - Desmascarando Michael Moore)
Debbie Melnyk, Rick Caine /77 min/ CANADÁ
Um documentário sobre Michael Moore, contra Michael Moore, e que poderia ter sido dirigido pelo próprio.
Lutzenberger: For Ever Gaia
Frank Coe, Otto Guerra / 52 min/ BRA
A interessante figura do estudioso e ambientalista se perde na salada (indigesta) do diretor, que mistura linguagens em um projeto didático e televisivo.mais voltar
Esquecido Retrato Interior
Vakhtang Kuntsev-Gabashvili / 20 min / Geórgia
Questiono-me a cada instante acerca de filmes sobre pessoas com distúrbios mentais.
Nova Babilônia de Constant
Victor Nieuwenhuijs, Maartje Seyferth / Holanda
Noite Mágica
Jouni Hiltunen (Finlândia / Finland, 2006)
Disputa o prêmio “sono eterno” com Nova Babilônia.
Neve Avermelhada
Tamara Taddeo (Canadá / Canada, 2006)
Um lindo sonho filmado. Tamara nos oferece suas lembranças como um precioso presente. Um dos mais lindos curtas do festival.
Erlend E. Mo (Dinamarca / Denmark, 2006)
Mais um da série delicado-poético-ao-som-de-música-clássica. É interessante perceber como o poder transformador das obras de Bach e Haendel se manifestam mesmo em trabalhos menos inspirados.
Heidi Ewing, Rachel Grady (EUA /
Integrante da mostra especial Hors Concours , um dos filmes mais polêmicos e interessantes do festival. Se encaixa no gênero “descontruindo os EUA”, o que pra mim é muito bom!mais voltar
Fotografias (Photographs)
Andrés Di Tella/ 2007 / Argentina
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Tenho grande simpatia por filmes argentinos. Sempre me agradam com belas surpresas. O documentário de Andrés Di Tella poderia estar entre os premiados. Sua jornada, e os personagens que encontramos, são cativantes. O filme apresenta pontos de ataque e questionamento, o que para mim caracteriza um bom documentário. Sensação que a história se perde nas mãos do próprio realizador, transformando o processo em algo inusitado e espontâneo. voltar tudo



3 comentários:
gostei muito. tá rolando aqui tb o É tudo Verdade. mas nem tive como ir. :p
ACHO DIGNO! :D
tô adorando o blog. assim que voltar a ter internet em casa comento melhor.
inveja danada do passeio no festival!
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