
Paraíso
"Platéia de débeis mentais", texto do mestre Setaro publicado em seu blog, acerta na mosca ao falar do processo de deseducação das platéias de cinema. A galhofa da qual ele reclama não é simples reflexo da entrada dos multiplexes nos shoppings e do fim dos cinemas de bairro, mas sinal de deseducação mental. Não sei como é no resto Brasil, mas, ao menos em Salvador, as pessoas parecem ter desaprendido a ver, entender e curtir cinema. Estão mais ansiosos por impressionar suas contrapartes e colegas de farofada. Nada contra o galanteio em uma de suas mais clássicas versões. É até pensando no sucesso das investidas que não vejo sentido na conversaria, que joga para escanteio o encanto das carícias ocultas pelo escurinho do cinema.
O buraco é mais embaixo, porém. O que falar das pessoas que riem nos momentos mais escabrosos, quando o personagem se ferra de mil formas? Ou então daqueles que, entediados mesmo diante das narrativas mais elucubrantes, conversam como se estivessem na sala de suas casas? Mais que falta de educação, o que impressiona é a ausência de sensibilidade diante de uma obra de arte. Assim como há quem perde a audição ou o paladar, há pessoas que têm um sentido de apreciação amortecido. Vão ao cinema sem alma. Numa situação normal, que atrativo poderia ter qualquer conversa diante da imagem em si, em sua beleza imanente, materialização de imaginários visuais que nos movimenta e nos faz mais humanos? O alimento pode ser consumido a qualquer momento. Os amigos terão outras chances de nos ouvir, bem como haverá melhores oportunidades para impressionar a paquera. Mas aquele filme nunca se repetirá para nós impunemente. A imagem perderá seu frescor, terá o peso da coisa reprisada.
A TV é a cultura audiovisual do brasileiro. Recentemente, o DVD teve um estouro. Mas basta observar um pouco para perceber que, em sua maioria, os aparelhos instalados se prestam mesmo à exibição de DVDs musicais (quase sempre piratas) de artistas de axé music e afins. Quando muito, se assiste a novelas. Séries de TV, na melhor das hipóteses. Filme é um negócio demodê, lento, ultrapassado. Mesmo assim, eles tentam. Se vêem uma comédia, as risadas devem ser instantâneas. A construção lenta e poderosa, cujo ápice é impresso aos poucos na mente do espectador, perdeu seu valor – o cinema deve ser fast-food. O erotismo foi engolido pelo pornô — a onda agora é a seleção de cenas, para ir direto ao ponto. Os filmes de ação têm cada vez mais ação do começo ao fim, para não cansar. É uma geração hiperativa. A busca pelo clímax a todo instante leva, a longo prazo, à ausência de todo e qualquer prazer. Sofrem de anestesia estética. Por isso as conversas, a distração, a galhofa. É o desespero.
16 comentários:
Davi e Iris,
aqui em Goiânia é igualzinho. E como sou daqueles que não suportam o mínimo "piu" dentro de uma sala de cinema, tenho sofrido - e me irritado - horrores. Outro dia, comentei com uma amiga que quero escrever um artigo para um jornal local com o título: "Pelo aumento do valor das entradas de cinema e shows". Porque sempre escuto nas filas das bilheterias as pessoas reclamando dos altos preços. Mas depois, o que escuto de conversa... Daí, fico pensando: deve estar barato, só isso explica o fato de pagarem para ficar conversando (ao celular, inclusive!). Outro dia, fui a um show da Calcanhotto, daqueles bem intimistas, banquinho e violão. Vocês não fazem idéia do zum-zum-zum. Quis ir embora depois dos 20 minutos iniciais. Não o fiz porque os amigos que estavam comigo não deixaram. Sinceramente, não dá para entender. Onde é que fica o respeito pelo outro?
Abração
O cinema virou uma espécie de extensão do processo de 'shoppear'. Triste! Vai-se ao cinema como se entra em qualquer lanchonete para comer um cheesburguer. O cinema virou um autêntico 'fast food'.
Gostei muito de seu texto que comunga com minha visão desse vandalismo reinante no comportamento da platéia que 'vê' um filme. Reina a mais absoluta esculhambação. Vou, atualmente, menos a cinema do que antigamente. E, quando vou, vou na primeira ou na última sessão, longe da demência e dos débeis mentais.
André: o absurdo é que sejamos nós os que têm que se descolar para curtir nossos filmes em paz. Se fosse por mim, todo cinema teria dois ou três seguranças com a audição treinada para pegar qualquer sussurro, e conduzir de imediato os bagunceiros para o olho da rua...
demas: o respeito é idéia muito avançada para esses aborígenes. Certa vez, mudei de lugar antes do começo do filme, e fui parar perto de um casal que conversava o tempo todo. Quando reclamei, o cara virou pra mim e disse: "mas a gente tava aqui primeiro". A asneira foi tão grande que só pude rir. Mas deu certo: ficaram calados a partir de então.
Ha, tb acho que falta respeito e tal. Mas sei la, não perco minha paciência por esse tipo de coisa. Vou muito ao cinema e sempre tem aquele casal que fala, aquela mulecada que fica zuando, mas fazer o que!? É melhor não ficar irritado com esse tipo de coisa, senão morro cedo.
Abraço.
Parabéns pelo Blog
pois é rafa, já tentei relaxar também, mas não dá.
o problema é que nós morremos com isso.
:(
abraços e obrigada pela visita
iris
Hum... Nao eh soh no 'Terceiro Mundo'. Nos EUA, na terra do fast-food do entretenimento: mesma coisa.
Que desamor quanto as salas de multiplex. Ainda bem que aqui em Sampa onde existem os lugares com cinemas sem shoppings, ainda temos o privilegio de termos filmes realmente bons!
Respondendo sua pergunta do msn: Estarei provavelmente. Vou ver os dias que marcarei presença. Espero que possamos marcar algo algo.
acho que um problema nacional. mundial, diria, se conhecesse o mundo.
a falta de sensibilidade, o fato de não conseguirem 'sentir' o que está diante dos olhos, no outro, na tela, revela um egoísmo tamanho, O egoísmo, matéria principal de que é feito o humano, hoje.
Caro Erick,
Obrigado pela visita! Essa é a nossa opinião ( apesar do texto ser só do Davi).
Eu realmente acho uma DESGRAÇA ficar conversando no cinema. Não tenho paciência para brincadeiras nem comentários imbecis sobre o que está acontecendo, sobre o cabelo da Juju, sobre o beijo do Paulinho ( ou você acha que estou falando das reações ESPONTÂNEAS das pessoas por conta filme?). Veja bem meu caro, as pessoas que ficam conversando durante a exibição não estão colaborando de maneira alguma para minha experiência estética, elas estão simplesmente emitindo zumbidos indesejáveis, desrespeitando meu direito de consumidora. O que dizer de pessaoas que foram assistir " Cartola" e começararm a cantar junto com o filme, soltando berros desafinados só pq estão envolvidas com a narrativa? Vão conversar na casa do caralho!!!
Deus me fez pequena, mulher, fraca e com um pouco de bom senso. O que me impede de descer a madeira em certas pessoas.
Caro Erick, não me entenda mal, estou numa semana horrorosa e sem muita paciência.
erick:
Se alguém, diante de uma obra de arte que projeta som e imagem num período de tempo, desvia sua atenção desta obra para tratar de outros temas, enquanto perde (não vê ou não ouve) o que está passando, no mínimo se pode supor que esta pessoa não está interessada em fruir esta obra. Se esta obra (ou estas obras) possui um grande número de construções poderosas, impactantes, emocionantes, e mesmo assim estas pessoas preferem conversar no celular diante delas, eu acho que tenho motivo para supôr que elas não se tocam, não se emocionam, não curtem, não gostam do que está passando. É uma consequência lógica, somente.
Concordo que o cinema é, e deve ser, uma arte popular. Não foi à toa que, diante da criação e do crescimento da importância do som no cinema, bem como da sofisticação da linguagem do cinema, o comportamento do público em geral mudou. Da barulhenta galhofada dos vaudevilles (que não tinham som, mas acompanhamento musical ao vivo), chegamos ao cinema de hoje, em que a fruição e o clímax são fenômenos internos, e o descanso das cordas vocais facilita a atividade mental e emocional que encanta multidões. Chamar de mal educados, ou dizer que "sofrem de anestesia estética", é uma resposta natural, diante do fato de que esta transição (para o cinema sonoro de linguagem sofisticada) se deu já nos anos cinquenta. Houve bastante tempo, portanto, para se adaptarem. E não foi porquê o cinema passou a exigir o silêncio do público que ele ficou menos popular. É uma simples questão de educação.
Não se trata de elitizar, de dizer quem é melhor e quem é pior. E, se seu comentário pressupunha que houve, no texto, uma crítica elitista, devo dizer que muitos dos conversadores compulsivos que encontro por aí são pessoas de alto poder aquisitivo, que têm o péssimo hábito de achar que suas necessidades são mais importantes que as dos outros.
No texto, a falta de educação é tratada como a ponta do iceberg de um modo de encarar a arte. Seu comentário faz parecer que eu associei de forma direta e simplória o ato de conversar na sala de cinema com a insensibilidade estética, por um viés moralizante. Quer dizer: eu seria o representante de uma moral careta e chata, e o cara que conversa seria o representante de uma espontaneidade popular positiva (como se falta de educação fosse sinônimo disso...).
É justamente esse maniqueísmo, que você construiu tão apressadamente, que o impede de ver o texto como um todo, e de entender que no fundo eu estou falando de um fenômeno moderno (a "frenetização" do consumo de conteúdo), do qual o comportamento no cinema é um efeito.
O que eu defendo é uma hipótese, que pode estar correta ou não. Obviamente que eu acho que está correta, caso contrário não a teria escrito. Mas entendo perfeitamente que não se trata de um relatório científico, e sim de uma análise baseada em percepções e sentimentos que foram se acumulando diante dessa situação que eu, infelizmente, conheço tão bem.
Eu vi que você deixou seu email no comentário, mas, como você comentou de forma pública, eu achei melhor responder da mesma forma.
Davi, você é a parte sensata, lúcida e educada do casal. por isso te admiro!!!
quer conversar? saia da sala! isso se aplica às aulas, seminários e palestras.
Vão conversar na casa da desgraça. no meu ouvido não.
Iris de oliveira
Faltou dizer: a crítica que faço é à falta de atenção do púlico para com a obra. Reações sonoras, tais como a risada, o susto e o espanto são sinônimos de uma conexão íntima com o filme, e não me incomodam nem um pouco. O problema é a conversa, por um lado, e a "amostragem" (como se diz por aqui...) de outro. O problema é o exagero.
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