Sábado, Fevereiro 17, 2007

Histórias do Carnaval

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Por Ela

Eu gosto de Carnaval, não vou mentir. Não desse carnaval axé bá bá abestalhado, violento, caro, separatista. Nem das bundas turbinadas e “tretas” globais nos desfiles das escolas de samba, nem do excesso de pó de pirlim pim pim embalado pelas marchinhas recifenses. Eu gosto é da folia feliz, da vagabundagem, das letras dos sambas, do ritmo das baterias, das malícia das marchinhas, das fantasias, da maluquice.

No ano de 88 cheguei à Bahia. Guria, não entendia muita coisa. Deixei no Rio o Carnaval dos pierrôs, dos martelinhos, do lança perfume, do spray de espuma, dos gigantescos monstros coloridos (os carros alegóricos), para curtir o simpático Carnaval de bairro de Itapuã, com direito a fantasia de baiana, lantejoulas, estrelinhas e, claro, muitos passos de lambada e dança afro. Para mim e minhas amiguinhas, Carnaval era o máximo. Para nossos pais, uma tragédia. De tão preocupados, era impossível tomar suas cervejas em paz.. As famílias “desciam” em bandos. Na praça de Itapuã, na frente da Igreja, armava-se (até hoje se arma) um descarado parque de diversões e um palco para as “atrações” da noite. Nós (eu mais um grupo de 5 a 6 pivetas) sabíamos de cor todos os hits e coreografias. Era uma agunia de menino cantando aê aê.

No carnaval de 97, 98 , não lembro direito, aconteceu algo que mudaria para sempre minha concepção de Carnaval, meu gosto musical e futuros hábitos noturnos. Eu e minha comparsa Patrícia resolvemos caminhar um pouco além da pracinha de Itapuã e seguir um grupo de meninos engraçados, com camisas pretas de Nirvana e Raul Seixas. Eram xexelentos mas até bonitinhos. Na época, eu e Paty éramos doentes por Legião Urbana, e contávamos 14 pra 15 anos. Já não nos vestíamos de baiana, nem gostávamos tanto de Banda Mel.

O percurso nos levou até o coqueiral de Piatã. No local, um palco modesto, meio armengado. Em cima dele, uma mulher cantava (berrava), acompanhada por uma banda não menos esquisita. Eles tocavam um troço chamado “HC”. 99,9 % das pessoas vestiam preto. Parecia um grande velório, onde aqueles jovens enterravam o Carnaval do a lá lá ô. Fumaça de cigarro, ligantes, capetas, muitos skates, pessoas tatuadas, maquiadas, transtornadas, hippies, punks, góticos. Era a visão do inferno. Eu e Paty nos apaixonamos por tudo aquilo à primeira vista. O ambiente era meio “carregado”, mas se rendia à beleza do clima praieiro. Alguns shows começavam no pôr do sol. Jovens de todos os bairros de Salvador se encontravam naquele local. Meninos e meninas saiam de suas casas para curtir talvez o único show de rock que teriam durante o ano. O espaço era aberto e gratuito. Alguns até acampavam.

Durante uns três Carnavais eu e Paty enganávamos nossas mães. Num momento de vacilo, saíamos correndo de Itapuã até Piatã num tempo de 3 minutos e 48 segundos (cronometrado), só para ver o tal do “CarnaRock”. Depois, voltávamos esbaforidas, com as maiores caras de santa puta, dizendo que a fila do caldo de cana estava quilométrica.

Com o passar do tempo, e depois de muito sofrimento, convencemos nossas mães a nos deixar ir ao tal do evento. Na época, seu “Valera” tratou de fazer uma matéria esculhambado o palco do rock − realmente, uma “galera do mal” ia lá só pra arrumar confusão. “Valera” exibia pedaços de pau e spikes usados por um black metal abestalhado (nada contra black metal), que desceu a madeira em meio mundo de gente. Enquanto a matéria passava no jornal do meio-dia, tentávamos (eu e Paty) distrair nossas mães para que elas desviassem os olhos da TV. O local tinha uma péssima fama, e nem os policiais encarregados de fazer a segurança do local trabalhavam com muita “alegria”. Nossas mães não entendiam que porra nós fazíamos lá.

Era um momento de liberdade e descoberta − todas essas divertidíssimas babaquices da adolescência. Conhecemos uma pá de gente legal, e agora descíamos em bando! Nós, a nossa galera, com litros de vinho São Jorge, ligantes, capetas, Pirassunungas e algumas moedas para o hot-dog (na verdade, não bebíamos nem um terço da cachaça que levávamos: ou morríamos logo na areia, ou ficávamos curtindo as bandas). Nós, meninas malucas, com nossos toppers (nunca gostei muito de all star) e calças rasgadas, éramos escoltadas pelos nossos “brothers”, que nos protegiam das confusões e abriam a roda pra gente “ponguear” em paz. Era o auge de Raimundos, Planet Hemp, Stone Temple Pilots, Guns, Pearl Jam, Metallica, Sepultura, Pantera, Raul (vivo em nossos corações), Rage Against The Machine... Pitty ainda tocava na Inkoma e Ronei comandava a Saci Tric. Retro era Dead e Casca era Dr, se não me engano. Tinha ainda uma pá de banda que eu lembro o nome, mas não vou citar aqui pra não cometer a injustiça de deixar alguém de fora. Tudo muito tosco, muito complicado e, ao mesmo tempo, muito de fudê.

Os anos se passaram. O evento continuou, parou, eu e Paty paramos, continuamos, o palco mudou de local, foi pra cima do trio, desceu... a galera da ACCR sempre correndo pra parada sair. O tempo passou mais um bucadinho, eu comecei a ouvir umas tosqueiras indies (nada contra indies), e a freqüentar festas de rock durante todo ano, sem muita paciência para esperar o Carnaval, Raimundos e Planet acabaram, Paty casou.

Hoje, passando de buzu pelo local, vejo o palco armado. Estrutura melhor, mais organizado. Bateu a nostalgia, aquela sensação massa que tínhamos toda vez que chegava o carnaval. Como era legal ouvir (mesmo que tosquinho) Smells like, Alive e gritar Killing in The Name Of!!

2 comentários:

Edson Bastos disse...

Escreva sempre. Essa nostalgia é boa (se é que é possível). Um escritor que gosto diz que é eterno tudo aqui que reside na memória (que romântico). Então viva. Tudo o que procuro nesse carnaval é uma festa assim, longe do Aê-aê-aê-ei-ei-ei-ô-ô-ô...

Nirton Venancio disse...

Iris, você é "de Oliveira"? Foi você que deixou uma mensagem no meu blog?